CARLOS RIELLI JR.
PERITO RESTAURADOR -
(11) 3676-0249 -
rielli@restauro.com.br

TÉCNICAS, DICAS E RELATOS

 

Títulos aqui encontrados:

Restauração ou Reforma?

Patrimônio mal cuidado perde valor comercial.

Clima tropical acaba com obras de arte.

Restauração de Painéis.

Mistérios Lendas e Tradições.

A hora certa de restaurar.

A arte de comprar arte.

Conceito: O que é restauração?

Dicas de Restauração.

O Caso Salvattore.

E Monet foi para a UTI !

Conservação de Quadros no Brasil.

Conservação e Responsabilidade..

O GOYA que virou GOIA.

 

 

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RESTAURAÇÃO OU REFORMA ? 

  O conceito existente sobre a restauração de edificações costumeiramente executado no Brasil, vem sendo erroneamente aplicado e ensinado desde as origens, ou seja desde as escolas de arquitetura. Quando se propõe a restaurar um prédio, um museu, uma igreja, podemos normalmente contar com dois tipos distintos de restauração.

O primeiro, chamado de arqueológico ou museológico, consiste em conservar o sítio exatamente como ele se encontra, preservando o local tal como ele se encontra, identificando separando o entulho real dos elementos pertencentes e pertinentes à construção original, selecionando das quais partes esses elementos provieram, e de acordo com a facilidade apresentada, recolocalos ao lugar original, e finalmente proceder ao suporte técnico e material para estagnação do processo degenerativo gerado pelo tempo e por fatores estranhos aos naturais. Esse tipo de processo, estende-se desde o reforço estrutural, até a simples limpeza e conservação física do sítio como um todo, sempre lembrando que a originalidade do local deve ser preservada a todo custo, e de nenhuma maneira admite-se a inclusão de novos elementos complementando assim o original. Esse é o tipo de restauro é usado principalmente na Europa, e um bom exemplo é o Coliseu de Roma, onde nada foi acrescentado desde que se iniciou o processo de conservação e restauração.

O segundo tipo de restauro, o ilusionista, é aquele que é subdividido em duas partes: A primeira, é idêntica ao restauro  arqueológico, os mesmos procedimentos são realizados, seguindo todas as etapas. A segunda parte, consiste em acrescentar ao sítio, as características semelhantes às originais que este possuía do quando de sua construção ou mesmo de alguma época pós reforma.

  Desde que os materiais empregados para esse fim (a reconstrução), sejam de constituição diferente dos originais, não haverá a homogeneidade entre estes, o que sempre será um divisor entre o original e o restauro ilusionista. Um bom exemplo, seria de um prédio originalmente construído com pedras, e as partes ausentes, reconstituídas com tijolos tipo “Ciporex” (material novo, poroso, muito leve, próprio para construções). Na parte de acabamento, das paredes, pisos, forros, guarnições de portas e janelas etc.; deve-se usar materiais e elementos semelhantes aos originais, respeitando contudo as divisões entre as partes originais e as refeitas. Nesses casos, pode-se salientar tais limites de divisões, através de espaços claramente demarcados com outros elementos ou mesmo com desenhos ou veios contrários aos originais.

  Quanto a pintura, podem ser usadas as de “q.s.p.” baseados em P.V.A pois as pinturas originais, de manufatura geralmente rudimentar, muito raramente e, em alguns casos especialíssimos, conseguem resistem ao tempo. O envelhecimento artificial das pinturas irão dar o “cache” de antigüidade e uma melhora substancial  na estética de todo sítio.

  A “restauração” mais praticada no Brasil, é na verdade, uma reforma!

O que vem a contradizer os dois conceitos básicos de restauração descritos anteriormente, visto que é usada para refazer uma nova estrutura, sem a preocupação de distinguir,  proteger  e preservar o original, mantendo apenas o interesse no aspecto estético e arquitetônico na apresentação final do trabalho realizado.

  Ocorre que nessas reformas, são usados costumeiramente materiais e elementos idênticos e de mesma procedência dos originais, que vem acarretar com o passar do tempo, a fusão entre original e reconstruído, sendo praticamente impossível a ação de reversibilidade do feito, que é regra obrigatória da restauração. Embora o aspecto da construção e do sítio, após a reforma possa parecer de excelente qualidade, preservando as  características da construção original, não significa que este foi restaurado! Esse procedimento de simples reforma, aplicado como se fora restauração,  pode ser facilmente constado em várias igrejas, museus e prédios históricos do país.

“A restauração, é a arte de apenas recompor e conservar um original”

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PATRIMÔNIO MAL CUIDADO PERDE VALOR COMERCIAL  

Obras de arte que passam anos e anos penduradas na parede, suportando todas as mazelas climáticas de nossas indefinidas estações, acabam adquirindo uma camada graxosa, composta de inúmeros elementos corrosivos e degenerativos. Esta camada é o ambiente propício para o desenvolvimento de fungos e bactérias, que desidratam e alteram a pigmentação original de uma pintura.

Segundo o perito e restaurador de obras de arte Carlos Rielli Jr., “é preciso uma ação preventiva para evitar que o dano causado pelo tempo prejudique o valor artístico e comercial da obra”.

O processo de restauração é composto, basicamente, por três fases distintas: testes preparativos em toda a capa pictórica (até nos menores tons das cores básicas); restauração propriamente dita, que consiste na remoção de resquícios de verniz e da camada graxosa, limpeza completa da capa pictórica e eliminação e remoção de colônias de fungos impregnadas na tinta; refixação de toda a capa pictórica na tela (que vai paralisar o processo de “craquelagem” na tela).

“Após todo este trabalho é preciso, ainda, aplicar uma camada de verniz ‘Adaubert’ e, sobre este, dar o retoque ilusionista (pigmento puro mais água), quando necessário. E, enfim, aplicar mais três camadas distintas de verniz “‘Adaubert’”, explica Rielli.

Conforme os padrões internacionais de restauração, qualquer trabalho realizado em uma obra de arte deverá ter o padrão de reversibilidade. Afinal, cabe ao restaurador devolver a obra de arte a sua beleza original.  

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CLIMA TROPICAL ACABA COM AS OBRAS DE ARTE  

 O s países, sofrem através de suas obras de arte, quadros principalmente, as conseqüências de que em um mesmo dia, e diversas vezes ao dia, contar com as intempéries de todas as estações do ano. O quadro, usa basicamente em sua manufatura, madeira, tecido, base mais pigmentos coloridos naturais, que de acordo com a temperatura ambiente, podem dilatar-se ou retrair-se. Nos países europeus, esse tipo de “movimento” nos quadros, acontece naturalmente durante o ano, nas entradas e saídas da estações climáticas que são muito bem definidas. Portanto, o europeu, desenvolveu um tipo de verniz ideal para os seus quadros, que a séculos vem sendo usados. Sim, muito bom para os quadros em países de clima definido, jamais para os tropicais! O tipo de verniz por eles utilizado, quando aplicado em quadros em zonas tropicais, a base de “Goma Damar”, cria uma película sólida e inflexível, e quando existe a natural movimentação do restante do quadro, sem que a capa de verniz acompanhe esse movimento, surgem os craquelados de intensidade de sinistro, o descolamento da capa pictórica, assim como o apodrecimento precoce da tela. A única maneira para que isso seja evitado, é usando um verniz a base de um composto de ceras vegetais e animais, que tem como características a maleabilidade, ou seja, o verniz “andará” junto com o restante do quadro, deixando-o hidratado e integro pelo tempo em que este se fizer presente  

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RESTAURAÇÃO DE PAINÉIS  

       Em decorrência da poluição atmosférica nas grandes cidades, toda obra de arte esta sujeita a adquirir uma camada graxosa, composta de inúmeros elementos corrosivos e degenerativos, criando assim ambiente propício para o desenvolvimento de fungos e bactérias aeróbicos, os quais desidratam e alteram a pigmentação original de uma pintura, assim como alteram as características estéticas da obra. A ação preventiva do restaurador, impede que a obra de arte chegue a um ponto que o dano causado pela ação do tempo, venha a prejudicar o valor artístico e mesmo afetar seriamente seu valor comercial.

            No painéis hora em perícia, podemos notar claramente um processo de decomposição em andamento, afetando assim, a qualidade artística e visual da obra.

       Os referidos painéis, ainda apresentam sinais de sinistro grave, devido a atos vândalos.

            Desde que, o objetivo principal, é a exposição e conservação da obra, a necessidade de uma apresentação digna da qualidade e do efeito visual dos painéis, se faz extremamente necessários.

    O processo de restauração, a ser aplicado nestes painéis, consiste primeiramente em uma bateria de testes, em todas as matizes, em todos os pigmentos, assim como em toda a estrutura da obra. O segundo passo, é a limpeza, a remoção de todos os vernizes e restauros anteriores, assim como de toda a camada graxosa, que este apresentam. Somente depois disso, é que o processo de recomposição, será iniciado.

            Estando os painéis desinfetados e refixados, será procedida a etapa de restauração dos setores que não apresentam a forma original, preparando-os com produtos reversíveis para os retoques e reparos, onde necessário. Caso a análise química do pigmento permita, será passada a primeira camada de verniz neutro tipo "Adaubert", e, sobre esta primeira camada de verniz receberá o retoque ilusionista,  ( pigmento puro mais água ), quando se fizer necessário. Finalmente aplica-se três camadas distintas de verniz neutro tipo "Adaubert" , evitando assim o excesso de luminosidade sobre o painéis, e conferindo a este, uma cor mais uniforme e natural.

         No caso específicos dos painéis em análise, recomendo a aplicação de três camadas extras de verniz “acrílico forte”, verniz este, que suportará com mais facilidade as intempéries a que estes painéis estão sujeitos. Este verniz, permite a lavagem periódica do painel, limpeza esta que poderá ser executada pôr leigos.

            De acordo com os padrões internacionais de restauração, todo trabalho executado em uma obra de arte, deverá ter padrão de reversibilidade, não afetando nem modificando em nenhuma circunstancia o original do artista.  

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MISTÉRIOS, LENDAS E TRADIÇÕES

  “Restaurar é a arte de recompor um original!” (Carlos Rielli Jr.)  

 Com essa definição, vamos encarar o restauro como uma ciência exata que cuida de preservar e recompor aquilo que já foi criado. É muito grande a diferença entre restaurar e reformar, são coisas completamente distintas, pois o restauro preserva na totalidade as características atribuídas à obra pelo autor e, reforma, atribui uma nova “alma” a obra de arte.

 A origem do restauro, vem do tempo dos homens das cavernas, onde o desejo de preservar a criação de outra pessoa, logrou no desenvolvimento de técnicas especiais para tal fim.  Na idade média, até tempos mais recentes, os produtos usados, eram os fornecidos pela natureza, usava-se bílis de boi (emoliente de pigmento), polvilho azedo (contra fungos) etc. Hoje em dia, usam-se produtos mais atuais, área onde me dedico bastante e de uma feroz combatividade frente aos tradicionalistas. Por ex:, uso antibiótico onde se usava de polvilho azedo, e silicone como substituído à bílis bovina.

 O restaurador, deve obedecer a certas regras como a respeitar a reversibilidade do trabalho por ele feito, pois se assim não fosse, um quadro de 500 anos, seria uma sobreposição de vários restauros, deixando o original, escondido! O restauro bem feito, e realizado por um profissional gabaritado em Fine Art´s, nunca irá desvalorizar ou depreciar a obra, claro que dentro de um critério onde o sinistro não envolva na perda total de características principais da obra, como por exemplo o rosto do personagem principal, fato este que força o restaurador a dar seqüência ao “criar” para poder manter ao menos a estética da obra, uma vez que o valor comercial e artístico, se foi!

 Existem três tipos de restauro, o arqueológico, ou museológico, onde nada é acrescentado a aparência final da obra, visando preservar sem maquiagem a obra como ela está no dia da conservação ou o que restou dela. O tratégio, uma técnica que retoca o original através de micro-bastões multicoloridos, proporcionando ao expectador situado a uma certa distancia, uma situação de plenitude da obra original, sem danos. Apenas chegando perto é que se nota os locais de restauro.

 E por fim, a mais usada, o ilusionismo, que é o tipo de restauro reconstrutor, que retoca a obra nos locais de sinistro, conforme era na original, mas sem contanto tocar fisicamente no trabalho do artista.

 É simples como isso é possível...  quando um quadro aparece com um furo, as providências tomadas pelo restaurador são:

  _a limpeza

_a desinfecção da obra,

_a reconstituição da base (ex: remendo na tela por traz)

_a nivelação através de massa mineral

_o isolamento dessas áreas afetadas.

_e a aplicação de camadas múltiplas de verniz.

     Só então, é que o retoque terá início, sendo que a tinta usada pelo restaurador, não “toca” nem se agrega á tinta utilizada pelo criador! Existem o material isolante, e as camadas de vernizes entre elas.

 Quando o próximo restaurador for trabalhar com a mesma obras, um simples removedor de vernizes (que não afeta a tinta) irá retirar todo o verniz, e por conseguinte qualquer pigmento que se encontre sobre este!

 Todos materiais, colas, ceras, solventes, tintas, massas etc. utilizadas pelo restaurador em um trabalho, obedecem necessariamente à condição de reversibilidade, ou seja, podem ser removidas sem afetar o original.

  Dentre danos mais freqüentes em uma obra de arte, vamos usar a pintura como exemplo, estão em primeiro lugar as condições atmosféricas, a graxa produzida pela poluição das cidades (antigamente originária de velas, fogões a lenha etc), aos maus tratos que a obra passa através de sua “vida”, e acreditem, pela quebra do suporte ou do prego que segura a tela na parede!

  Para a exposição correta de uma obra de arte, deve-se evitar ao máximo, a incidência das intempéries sobre tal obra. O sol direto, umidade, calor excessivo, choques térmicos, desidratação, são fatores que precisam ser observados. Os locais de exposição de tal obra, devem ser refrigerados, livres de umidade e parasitas, e longe das correntes de ar!

 Quanto à conservação simples, é necessário e recomendado a passagem de um espanador de plumas uma vez por semana. Apenas e tão só isso!!!!

   Citarei algumas das crendices e costumes erroneamente usados na limpeza e conservação de uma obra de arte:

  . Passar batatas ou cebola sobre a tela.

  Efeito imediato- hidratação da capa pictórica realce de brilho e cores.

Efeito secundário- tão logo esteja seco a proteína ou o amido desses vegetais, será iniciado um processo de desenvolvimento de colônias de fungo nos resíduos destes o que acarretará uma opacidade sobre a pintura e a curto espaço de tempo um grave sinistro sobre a capa pictórica.

  . Passar óleos, lustra móveis, terebintina etc.  

Efeito imediato- hidratação da capa pictórica realce de brilho e cores.

Efeito secundário- Assim como o exemplo anterior, o efeito de desidratação será semelhante, apenas levando um pouco mais de tempo para tal fato acontecer.

  . Aplicar camadas de verniz antes de limpar o quadro

  Efeito imediato- hidratação da capa pictórica realce de brilho e cores.

Efeito secundário- Nesse caso, será criado um sanduíche de matérias orgânicas, graxosos, e proteinícos entre as camadas de vernizes, o que virá a prejudicar a qualidade estética e artística da obra.

  . Passar pano ou flanela diariamente sobre uma obra de arte.

  Apenas um exemplo poderá servir como alerta. Imaginem que o poder de abrasão de uma flanela, seja mínimo, digamos valor 0,5 , e de uma lixa seja valor 500.

 Uma pequena passada de flanela na obra, passada por 50 anos contínuos, todos os dias faria que o efeito do desgaste fosse semelhante a 10 minutos de lixa! Já pensou o estrago? Pois é o que costuma acontecer.

 . Colocar esparadrapo, adesivos ou fita gomada na parte de trás do quadro.

  Costuma-se usar tal artifício para arremates ou mesmo para a reparação amadora de algum furo ou dano na tela.

Efeito secundário  - A “goma”, não seca! Ficando ali, um nicho perfeito para o desenvolvimento de fungos, bactérias e insetos.

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A HORA CERTA DE RESTAURAR

    Você mesmo pode notar quando um quadro apresenta uma situação delicada, que pode acarretar um sinistro; basta notar o “esbranquiçado” na tela ou pontos onde a “tinta” está caindo. Mesmo que esses pontos sejam ínfimos, tenha a certeza que o processo de degeneração da tela deve estar muito adiantado, pois quando os sinais de decomposição são visíveis é porque o efeito está atuando em uma grande parte da superfície da obra. Para o transporte da obra, chame o restaurador ao local onde está a obra ou em ultimo caso, transporte você mesmo, tendo o cuidado de levar a peça horizontalmente, não desprezando nenhum pedacinho caído do original.

 No caso de um sinistro, limpeza ou mesmo um ajuste no chassi, não tenha dúvidas, chame um restaurador! Moldureiros, cuidam da moldura ...e isso não deve ser esquecido!

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A ARTE DE COMPRAR ARTE !

  S em dúvida alguma, a compra de arte, é um prazer que pode trazer lucro ao mesmo tempo em que atribui status e classe a tua casa. O grande segredo para que isso aconteça com segurança, é comprar certo. Quantas e quantas vezes não confiamos em nossa própria “capacidade técnica” e compramos algo errado? Em arte ocorre à mesma coisa, e o problema é que quando você descobre, muito tempo já se passou e você nem tem como reclamar ou mesmo conseguir teu investimento de volta. E geralmente um alto investimento. O simples fato de você ler sobre determinado pintor, ou livros sobre estilos e desgins de peças, mobiliários, esculturas, não faz de você um perito em identificação!! Tenha a certeza que do outro lado, poderá ter um falsificador que sabe exatamente quais os detalhes você irá reparar, prepara cada canto da peça que você certamente irá mexer e sondar para ter a certeza de sua autenticidade, e como ele é um “profissional do mal”, sem dúvida acabará por vencer essa competição. Na compra, seja de peça, mobiliário ou quadro, você precisa ser extremamente simples, meio que detetive, notar detalhes corriqueiros pois são esses detalhes, os pontos que o falsário acaba pecando, e portanto deixando a fraude transparecer. Um exemplo: Na compra de um quadro falso, a assinatura certamente é perfeita, exatamente como o à do artista, afinal esse item foi exaustivamente feito e refeito pelo falsário, mas à parte de traz do quadro, a tela e o chassi, são visivelmente de épocas diferentes as das atribuídas pela época de nascimento do artista. Basta você fazer um comparativo com  móveis e utensílios da tua própria casa, que você chegará a tais conclusões! Imagine se você deixar a cortina de tua sala, sem lavar por 5 anos....  já imaginou? pois é... chegaria em um estado próximo ao podre! A tela de um quadro, como uma cortina, também é de pano e se deteriora exatamente da mesma forma! Se por exemplo, o pintor que assina o quadro, morreu em 1.945, a tela e a madeira do chassi tem que ser compatível com tal época, se for novinha, como tua cortina de 5 anos.... o quadro é uma falsificação! O mesmo se aplica para a parte de dentro das gavetas dos móveis de “começo de século”, para os “Made In” das cerâmicas “Companhia das Índias”, para a marca de emenda de formas por esculturas “feitas a mão”. Às vezes, acontecem verdadeiras arapucas, com o intuito de fisgar um comprador de boa fé, e normalmente conseguem! A ação ocorre da seguinte maneira: Um anúncio de jornal, oferece um quadro de “Portinari” de uma ótima fase. A “vítima”, pega o endereço e vai para casa da pessoa ver o quadro, casa essa que geralmente se situa em algum bairro nobre, casa imponente. É recebido por uma senhora idosa, dizendo estar se desfazendo de algumas peças e quadros. Quando nossa vitima entra na sala, vê Portinari, quadro absolutamente verdadeiro, mas na hora do preço nota que o valor é semelhante ao de qualquer galeria de São Paulo. Claro, o Portinari não seria um ótimo negócio, mas eis que seu olha de lince, nota um outro quadro, este de Di Cavalcanti em um canto da parede. Pergunta se o mesmo está à venda e a velhinha completamente ignorante diz que não sabe quem é o pintor, mas que por um valor razoável, estará disposta a cede-lo. Vende o Di Cavalcante por uma fração do preço real,e até mesmo emite um recibo vendendo um quadro com assinatura ilegível. Pronto!!! O golpe deu certo! Nossa vítima, certa que fez um negócio maravilhoso, que ganhou uma pequena fortuna, acaba de entrar em dos mais populares golpes! Se voltar a casa da velhinha, irá notar que somente a sala da casa estava decorada, e que a muito, assim que ele partiu, a velhinha e a decoração sumiram! Tecnicamente, a velhinha não o tapeou, nem disso nossa vítima pode reclamar. Resta amargar o prejuízo e rezar para que os amigos não descubram! Esse caso, é um dos muito que acontecem freqüentemente sempre que existe uma venda de obras de arte falsa, o valor da peça é proporcional à criatividade do estelionatário.

 O ideal a fazer, é você comprar a peça, ou mesmo reservá-la mas levar a um perito que possa identificar a autenticidade, a época, à qualidade e a compatibilidade de valores dentro de critérios de avaliação. Tal segurança, será muito importante principalmente na hora da venda, pois um perito dará tal instrução mediante a um documento, que não perde o valor a não ser em raros casos de contestação por um perito ainda mais capacitado. Tal documento chama-se “Expertise”, e quanto mais cara for à obra, de mobiliário a quadros, esta se faz ainda mais necessária. Nesses casos, o “tenho certeza”, o “juro que foi de meu bisavô” ou mesmo o “eu vi o artista pintando” caem por água abaixo ou se comprovam, mas para um futuro comprador essa certeza de um investimento seguro, facilitará em muito a revenda. Aí você verá que os valores cobrados de 3% a 6% do valor da obra para identificação, são até mesmo barato. Caro mesmo, é pagar 100% de algo que não vale nada!

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CONCEITO: O QUE É RESTAURAÇÃO?

   

“Restauração é a arte de recompor um original “

 Quando você possui uma obra de arte em sua casa, nunca poderá esquecer que ela, diferentemente de sua mobília, faz “parte da família”.  Além de seu valor estético, artístico e decorativo, existe o valor comercial. Uma obra de arte, para manter inalterado os valores artíisticos e comerciais, deve obedecer a uma série de critérios. O primeiro desses critérios, é a conservação da originalidade da obra, que significa voce ter integralmente, o mais fidedigno possível a obra tal qual o artista criou. Imagine voce se um quadro de 500 anos de idade, tivesse sofrido uma restauração a cada 30 anos...  hoje, o que existiria seria uma sobreposição de restauros e o original estaria completamente perdido. Pos isso, é usado um critério de reversibilidade do restauro, que a cada conservação ou a cada  restauração, o profissional restaurador remove tudo o que seu antecessor fez ou adicionou á tela orginal, refazendo o processo novamente desde o princípio.

 Para um melhor entendimento: Um quadro que foi rasgado, passará a ser sempre um quadro rasgado, o restaurador apenas dará a impressão que tal dano não exista, aplicando uma “maquiagem” na região afetada. A essa técnica, que é a mais difundida e aceita no Brasil, da-se o nome de “Restauração Ilusionista”. Tal técnica, feita com materias de padrão compatível com a reversibilidade, não acarretará a obra a perda de seu valor artístico ou comercial.

 

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DICAS DE RESTAURAÇÃO

   

1º Capítulo - Como avaliar se um quadro precisa restauro ou conservação?

  Em primeiro lugar, precisamos de tempos em tempos, parar e “analisar” os nossos quadros! Pois é...   um quadro quando começa a se deteriorar, é um processo tão lento que nem chegamos a perceber e quando notamos é porque o processo de decomposição já está muito adiantado, o que sem dúvida irá complicar o trabalho de conservação/restauração.

Quando você estiver analisando um quadro, preste a atenção se existem setores esbranquiçados, ou mesmo pontos que se pareçam com água respingada e depois seca, minúsculos furinhos em forma de micro vulcões, pó cor de areia, mofo, alteração de cores...  esses fatores isolados ou em conjunto, são indícios de colônias fungo, muito comuns em paises de clima tropical.

O segundo fator de sinistro é a camada graxosa, decorrente de poluição atmosférica ou mesmo da nicotina do cigarro. Esse tipo de dano atribui uma espécie de veladura sobre a pintura original, escondendo contrates de luz e sombra, amarelando a composição, tirando a perspectiva e denegrindo a qualidade pictórica da obra, além de agir como um corrosivo para o pigmento.

O terceiro e mais grave fator é o craquelamento da capa pictórica, que se deve ao ressecamento do q.s.p. do pigmento, que sem dúvida alguma poderá acarretar um sinistro irreversível em seu quadro caso não seja tratado a tempo. Isso é de simples identificação, pois inicialmente a tinta apresenta pequenas rachaduras, em uma primeira fase, riscos esporádicos horizontais e verticais, e depois micro quadriculados em toda a extensão da tela.

 

Esses três fatores acima apresentados, não são os únicos, mas são os de ocorrência mais comum em um quadro. São processo que levam a decomposição da obra, e quando tratados a tempo, além de devolver ao quadro todo seu esplendor artístico, conservam o valor artístico e comercial de seu patrimônio.

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O CASO SALVATTORE  

Arlindo Salvattore era meu amigo, um grande colecionador de arte além de meu cliente de restauração. Era um italiano do sul, bravo, rigoroso, exigente e normalmente estava com o humor abalado. Em um determinado dia no inverno de 87, em um leilão realizado por um outro amigo meu e também cliente, que aqui vou chamar de Paulo Pereira, Salvattore arrematou um quadro maravilhoso, animalista de um pintor chamado Cavalheiro Scognamiglio.  Eu sempre fui bom na identificação do Scognamiglio, um pintor do séc.  XIX, especialista em campo, animais e cotidiano. Ele era um pintor nascido no sul da Itália  e que teve uma grande produção artística. Sei que Salvattore comprou o Scugnamiglio por um bom  preço e enviou o quadro diretamente para eu realizar uma limpeza básica e aplicação de proteção antifungicida. Quando olhei pro quadro, comentei com Salvattore que o quadro era bom, bom até demais, nunca tinha visto algo tão bem feito por Scugnamilho, que era até surpreendente para a capacidade pictórica do pintor. Comecei a limpeza em uma tarde de quinta feira, tarde fria, chuvosa, e acho que foi isso que me motivou a ir limpando o quadro de modo que na sexta à tarde, ou seja, após 24 horas eu ainda estava debruçado sobre o quadro, extasiado com as cores, sombras e formas que apareciam. Quando comecei a limpar em torno da assinatura, (em torno porque a assinatura propriamente não se deve limpar;  ela sempre deve portar o sinal dos tempos a camada de sujeira de graxa e de vida, conservando aí todo o histórico e originalidade possível do quadro) notei que a parte de baixo da assinatura começou a soltar pigmentos diferentes dos originais do trabalho, e sob esses pigmentos descolados, apareceram vestígios de uma letra! Rezei para que não fosse o que eu estava pensando, mas era...  a segunda letra apareceu, e a terceira....  indício forte, digo mais que isso, certeza que era uma segunda assinatura coberta, provavelmente a do pintor original o que matematicamente comprovava que o quadro tinha sido falsificado!! Bem, o Salvattore, caso estivesse de bom humor e com o astral bem alto, iria apenas matar o Paulo Pereira por esse fato, ou seja, ter vendido um quadro falso a ele. Pensei bem, fiquei meio perdido, afinal os dois são meus amigos e bons clientes e resolvi o seguinte:  iria ligar primeiramente para o Paulo, informando o fato, para que ele providenciasse o dinheiro para desfazer a venda e depois para o Salvattore, que era quem havia contratado meus serviços, avisando o ocorrido. O Paulo entrou em pânico, disse que iria correr para o doleiro, reunir o dinheiro e ir imediatamente para a casa do Salvattore. Nesse meio tempo, liguei pro Salvattore e dei a noticia... – Encontrei outra assinatura em teu quadro !   O homem surtou, berrou, praguejou, esperneou e disse um rosário de palavrões tão grande que muitos eu nem sabia que existiam.

 Fiquei preocupado, resolvi ir ao encontro dos dois, levei o quadro pois sabia que o negócio iria ser desfeito de uma forma agressiva, e achei que deveria ser da forma menos traumático possível. Provido de um algodão embebido em Dermatil Formamida, passei sobre o vestígio da assinatura para terminar de remover a camada de tinta que escondia a original, e assim que saiu todo o retoque, tive a maior surpresa de minha vida...  apareceu a assinatura de Fillipo Palizzi ...   ninguém menos que “Fillipo Palizzi”! Os quadros desse pintor, valem pelo menos 10 vezes mais que os pintados por Scognamiglio, e diga-se de passagem, era um excelente Pallizi !

 Peguei o quadro e fui correndo pra casa do Salvattore. Quando lá cheguei, já na porta de entrada, pude ouvir o Salvattore praguejando, xingando o Paulo Pereira de todos os nomes, onde estelionatário era o mais bonitinho dos nomes.  Quando me deparei com os dois, Salvattore abraçava a pasta com os dólares, e o Paulo Pereira tentava contornar a situação pra não perder o cliente. Foi quando fiz a revelação sobre a verdadeira autoria do quadro, e na mesma hora, Salvattore  sem perder a entonação o timbre de voz e a ferocidade completou – “É como eu sempre digo, por mais que me tentem fazer de bobo, negócios por mim realizados são definitivos, não volto atráz por nada” e dizendo essas palavras, jogou a pasta de dinheiro para o Paulo Pereira, que por sua vez, com os olhos esbugalhados sobre o Pallizi, não queria de forma alguma aceitar o dinheiro de volta. A briga foi longa, durou um tempão, Salvattore explicando que ele tinha ficado bravo, mas nem tanto e que quadro comprado era fato consumado, e Paulo Pereira, dizendo que o negócio havia sido desfeito com devolução de dinheiro, identidade de artista incorreta e tudo mais.....  No fim, o quadro acabou ficando com o Salvattore; ainda bem, senão iria sobrar apenas para a humanidade!

 

O que aconteceu nesse fato, foi o seguinte: na época de guerra, da segunda, os alemães tinham relações de pintores que deveriam ser requisitados pelo Reich, então as pessoas cobriam as assinaturas originais, sobrescrevendo  com a de pintores menores. Como a guerra durou muito tempo, a retirada da assinatura falsa foi relegada ao futuro, e assim até hoje existem muitos e muitos caso semelhantes. Também em caso de divisão de herança ou divórcio tal procedimento era  (ou ainda é ?)  adotado.

  Essa foi uma História real, acontecida em 1.987

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E Monet foi parar na U.T.I. !  

 

Era uma terça feira, das mais comuns do mês de Julho de 1.992, noite, frio, e estar presente naquele instante diante de um quadro em frangalhos, era normal em meu trabalho de restaurador. O telefone tocou, e em um total desespero meu interlocutor num tom semelhante a súplica e ansiedade, disparou sem piedade: - O Monet....estraguei o Monet !!!! Fiquei chocado, atônito; naquele momento eu não poderia avaliar a extensão do sinistro, o que exatamente havia acontecido, podia apenas pensar que uns dos quadros mais lindos e importantes que já estivera em meu atelier, poderia estar irremediavelmente perdido!

  O jatinho me esperava nas primeiras horas da manhã seguinte, com os motores ligados, tripulação a postos e todo meu material de restauro  de emergência embarcado. Levantamos vôo rumo a um estado nordestino as 7:45 e três horas depois, estávamos aterrizando na fazenda do aflito, desesperado, inconsolável e talvez ex-proprietário de um autêntico Monet. Meu coração disparava, a cada passo que me aproximava da tela. Por fim, o quadro! Como um doente em estado crítico e terminal, o quadro me foi confiado. Uma cratera! Isso...uma cratera! É o que parecia o imenso rasgo em forma de cruz de exatos 15 x 12 cms que sangravam o quadro na parte inferior direita da pintura, a apenas milímetros da assinatura. Tons de verde mesclados com sépia e cobalto, desfraldavam uma rica marinha, com o mar em movimento constante e barcos dispostos ao sabor das ondas. Uma profunda emoção tomou conta de mim, quando tomei a consciência que eu, e apenas eu, seria responsável pela recuperação de tal obra de arte.

 A primeira providência foi isolar e manter fixa a área de sinistro da tela, de modo que o efeito “terremoto” do furo, não atingisse outras partes da obra,  nem acarretasse ainda mais descolamento de pigmento. Depois da refixação total da capa pictórica, fio a fio, reconstituída a trama da tela, preenchidos os espaços vazios com composto a base de caulim, lixados, isolados e nivelados os espaços, veio por fim, a parte mais difícil....o retoque final! Meu Deus...o resultado havia ficado espetacular! Não se notava sequer o local do sinistro, e as cores do retoque, como por mágica, se mesclaram às do grande mestre, deixando o restauro imperceptível. Com todo cuidado e esmero, sobrepondo-se os vernizes, as veladuras chegou-se ao final da recuperação da tela, onde depois de 18 dias de um profundo mergulho nessa tarefa, emergi de uma viagem que pareceu ser de apenas um átimo. Por fim, Monet saiu da U.T.I. apresentando um plástica impecável, uma saúde perfeita embora reversível, e com muito, mas muito mais segurança que antes, foi repousar em seu nicho na parede principal da sala.

O diagnóstico?? Monet estava salvo, completamente restabelecido! E o mundo das artes aliviado por não perder um de seus filhos.

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Conservação de Quadros no Brasil.


Todas as regras aplicadas mundialmente (leia-se Europa) para a conservação de pinturas a óleo, não podem de maneiraalguma ser aplicadas em quadros que estejam no Brasil. Devido ao nosso clima tropical, e a riqueza de nuanças de temperatura, desde as tórridas nordestinas às tênues sulistas, tornam todo material usado na composição de uma pintura, completamente inadequados. Começando pela própria tinta, cujo Q.S.P. (veículo do pigmento) a base de óleo, tem no prazo médio de sete anos uma secagem total e completa, acarretando com isso, devido ao ressecamento total, o início do processo de craquelagem.

A preparação da tela, normalmente a base caulim lixado e isolado, deveriam ser elaborados a base de P.V.A (composto usado em colas brancas e tintas tipo látex, no o mais recomendável para o caso brasileiro, já que esses materiais conservam a elasticidade da base da pintura). O chassi (a estrutura de madeira sobre a qual a tela de pano é esticada), em sua grande maioria, é feito sem cunhas (manchões próprios para controlar a tensão do tecido), e esse fato, costuma em uma freqüência muito grande, acarretar uma flacidez na trama do tecido da tela, propiciando o descolamento da capa pictórica e por fim um sinistro irreparável na pintura. Por fim os vernizes, novamente sempre os de origem e fórmulas européias, onde o clima definido e fiel às quatro estações do ano, não requerem nenhum tipo de elasticidade. No Brasil, como temos as quatro estações as vezes em um único dia, o único verniz adequado, seria um verniz maleável às intempéries, portanto a base de um composto de cera animal e vegetal. Ainda assim, a pintura está constantemente submetida á ação dos fungos aeróbicos presentes o ano todo em nosso clima tropical, e implacavelmente haverá um ataque sobre o pigmento da tela, tão logo esta entre em contato com algum tipo de umidade, seja ela atmosférica ou proveniente da parede em que o quadro está dependurado. No primeiro caso, a umidade atmosférica, podemos através de uma constante manutenção de uma grossa camada de verniz na tela, com produtos antibióticos misturados a estes, resolver o caso. E quanto a umidade da parede onde o quadro está dependurado, a simples colagem na parede de uma fina placa de isopor poderá vir a isolar a tela do contato direto da temperatura "fria" da parede, tornando a temperatura total do quadro, semelhante a do ambiente a que está exposto.

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Conservação e Responsabilidade


A palavra conservação, engloba um completo universo de técnicas e práticas, quando associada à obras de arte. O simples fato de possuir uma pintura, faz de você acima de tudo, um responsável direto pela manutenção e guarda dessa obra! Claro que você adquiriu, que detém a posse do quadro, mas isso, não faz de você o senhor absoluto dessa obra, pois ela foi criada, concebida e imaginada por alguém, que detém e sempre deterá o crédito de sua criação. O fato de que geralmente, o valor artístico estar estreitamente ligado ao valor comercial de uma obra, ajuda e incentiva para que essa obra seja melhor e mais perfeitamente conservada.

Um quadro, quando não conservado e tratado, com o passar dos anos, vai perdendo sua elasticidade, o Q.S.P. (veículo condutor do pigmento), resseca-se ao passar de médios 7 anos, e a partir daí, o processo de decomposição da capa pictórica e da base da pintura, como tela, madeira, cartão etc., é irreversível (caso não tratado), acarretando com isso, sérios danos à qualidade visual, artística e comercial desta obra. rte.

Fator "condições climáticas", são os maiores inimigos de seu quadro, pois como no Brasil, não contamos com inverno rigoroso, a proliferação de fungos aeróbios e anaeróbios que atuam sobre e sob a capa pictórica, são inúmeros. ( Caso tivéssemos um inverno como nos países Europeus, ciclicamente, os fungos mais nocivos, desapareceriam nessa época do ano, não dando assim, continuidade à colônia estabelecida no corpo do quadro.), também o fato de termos 4 estações climáticas em um mesmo dia, magoa de forma profunda a composição como um todo. Outro fator de grande relevância, é a grande poluição atmosférica a que estão sujeitas as grandes cidades, poluição essa, que atribui a capa pictórica, uma camada graxosa intensa, de alto poder corrosivo e degenerativo. Somado à esses agravantes do cotidiano, contamos ainda com o fato de que uma obra de arte, tem vida, por mais inerte e estática que possa aparentar! A tela, de acordo com a temperatura ambiente, pode estar mais o menos retesada, e quando a capa pictórica está ressecada, isso acarreta a craquelação do pigmento, e por conseguinte, o desprendimento de parte da tinta da tela. A tela base, ou seja, o tecido usado para a pintura, também entra em rápido processo de decomposição, chegando ao total apodrecimento em algumas dezenas de anos. Tudo isso somado ao verniz inadequado as condições climáticas brasileiras (pois o verniz a ser usado no Brasil, para um clima tropical, necessariamente deve ser um composto a base de cera, que possa "andar " junto com a pintura, em uma mudança abrupta de clima), torna seu quadro, sua obra de arte, um sério candidato a acarretar um aborrecimento extra para você e para seu bolso. A solução desses inevitáveis problemas, é a conservação periódica de suas obras de arte. O restaurador, revigorará o Q.S.P., da capa pictórica, regulará a tensão da ela, e rehidratará toda a estrutura interior e periférica do quadro. Um restaurador gabaritado e habilitado, pode definir qual o método ideal de recuperação ou de simples conservação a ser adotado em sua obra, adiando com isso, por tempo ilimitado a vida e sobrevida artística e comercial de seu inestimável acervo.

A aplicação de quaisquer produtos que não específicos para restauração, como cebola, batata, lustra móveis, jiló etc., vão ajudar tremendamente o desenvolvimento de fungos na capa pictórica, e envernizar um quadro sem antes estereliza-lo complemente, significa fazer um Sandwich de graxa e fungos entre o verniz recente e o antigo. E lembrem-se que todo restauro feito por aquela "tia" que entende de quadros, fatalmente levará a um sinistro irreversível de seu quadro querido!

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O Goya que virou GOIA.

                O GOYA GOIA ..


Um colecionador de arte, muito conhecido e muiiiiito famoso, entrou em contato comigo para uma conversa sobre uma perícia técnica que eu teria que fazer em um quadro de pintor europeu. Muito normal até aí, pois compradores conscientes sempre tomam esse tipo de atitude quando vão comprar algum quadro ou alguma obra de arte, para não ter a triste noticia que foi enganado quando precisar vende-la ou então ter que ouvir, lá do além, os xingamentos dos herdeiros.

Bom, o caso é que esse colecionador já tinha adiantado aos proprietários da obra o valor de U$ 40.000,00 apenas pela preferência de compra e direito de realizar a pericia por alguém de sua confiança. Combinamos meu honorários, prazos e tipo de certificado que eu emitiria e, depois de tudo acertado, ele propôs dobrar o valor que eu havia pedido. Surpresa né? Claro que tinha coisa... o quadro estava em Cuba, país sabidamente severo no tocante a compra e retirada da ilha de bens não turísticos, além do risco da atuação de um profissional não autorizado pelo governo local na qualidade de perito. Porém, a atribuição da autoria, era simplesmente de Francisco Goya, meu cliente pagaria pelo quadro U$ 8.000.000,00 e o deveria revender por mínimos R$ 20.000.000,00 na Europa. A parte mais complicada seria retira-lo de Cuba, por esse motivo que os proprietários se sujeitavam a vende-lo por valor tão aquém do original, mas para isso, meu cliente tinha seus contatos. O valor de meus honorários, logicamente cresceram muito em relação a essas quantias, ao tamanho da responsabilidade e principalmente ao risco que eu me exporia diante do fato que eu faria parte integrante desse esquema.

Embarquei com destino a Cuba com escala no Panamá, com a bagagem atulhada de toda uma parafernália de lâmpadas, produtos químicos de teste, ferramentas, equipamentos eletrônicos de teste e todo o apoio simples, que certamente eu não encontraria na ilha para comprar. Até mesmo algodão eu levei daqui do Brasil. Já no avião, fui morrendo de medo de ser pego com tudo isso, poderia ser facilmente comparado a um terrorista visto que o que eu levava, não teria o menor sentido um turista carregar, e em hipótese alguma, poderia contar meu real objetivo da viagem, com o risco de ficar preso em Cuba. Quando cheguei, hospedei-me em um hotel de categoria européia, como constava em meu contrato de trabalho, e, na manha seguinte, não sabendo o que me esperava, fui chamado à recepção por dois senhores cubanos que se identificaram como representantes do proprietário do quadro, e que me levariam ao local da pericia. Me apresentaram uma perícia autenticada de 1.988, feita por um marchand espanhol, atestando a autenticidade do quadro, perícia essa que parecia ser válida, bem detalhada, descrevendo exclusivamente a capa pictórica, ou seja os méritos e deméritos da pintura sem que fosse investigado o conjunto da obra.

O carro com que vieram me buscar era um Chevrolet 55, um caco! Não sei como aquilo ainda andava, parecia carro de filme de final dos tempos. Mas conseguimos chegar. Era em um lugar horrível, parecia cativeiro de seqüestradoR, entramos por essa coisa, passamos por diversos corredores entramos em outras casas, tudo como se fosse um labirinto, O que logo notei ser, por precaução. Finalmente entramos em uma sala pequena, e lá estava o quadro, coberto com uma pano. Um quadro grande, de 1,86cm X 1,12cm com uma pintura linda.. linda mesmo! O quadro era "Agustina de Aragon na Batalha de Zaragoza" atribuído à Francisco José de Goya y Lucientes, nascido em Fuendetodos Zaragosa Espanha em 30 de Março de 1.746 e morto em Bordeaux, França em 15 de Abril de 1.828. O histórico, parte muito importante da identificação, era perfeito. O quadro era de uma família notável espanhola residente na ilha que teve quase tudo confiscado pela revolução, salvando poucas peças de arte, entre elas o Goya. Falei com um dos familiares que confirmou a história e disse que o quadro havia sido adquirido pelo seu bisavô em Madrid e que tinha o recibo de compra de confiável galeria da época.

Comecei a perícia técnica,utilizando o recUrso da luz ultra violeta, da infra-red, de testes químicos de dureza, testes de pigmentos, de idade, analises do tecido, da trama da tela, da aglutinação do pigmento, das cores que eram características da época, enfim usei todos os meios que me eram disponíveis ali naquele cômodo. Quando parti para a identificação visual, vi as marcas características de idade da trama da tela, notei que a tinta possuía o craquelado peculiar à data, assim como a sujeira e o verniz desgastado e talhado. Porém, notei que a tela havia sido pregada apenas uma vez ao chassi, visto que não possuía reentelagem parcial nem marcas de reforço para que tenha sido esticada. O chassi por sua vez, era relativamente novo, sendo que atribuo sua manufatura aos anos 70. Certamente o quadro poderia estar enrolado esse tempo todo, e por isso não tinha marcas de outros chassi, nem marcas que conferissem ao quadro que já estivesse sido fixado a alguma moldura. A idade determinada da tela, foi através de analises na frente e no verso, mas observando melhor, notei que as manchas de umidade, com aspecto de serem muito antigas, e a sujeira dos tempos, não continuavam sob o chassi; sob a madeira do chassi, encontrei um tecido limpo, sem marcas nem manchas, sem nada e nenhum motivo para que eu pudesse atribuir uma idade superior a 40 anos. Também noteI que a resistência do tecido era ótima, não apresentando a flacidez e decomposição peculiar a idade de 300 anos de pseudo manufatura. Hora.. se o conjunto da obra (pintura + chassi) foram feitas por um pintor que viveu durante os séculos XVIII e XIX, como podia as evidências mostrar que a tela eram da segunda metade do século XX? Conclusão.. o quadro era uma falsificação!! Muito bem feita, mas completamente fake!

Quando os senhores que me acompanhavam me questionaram qual era minha opinião sobre o quadro, minha resposta foi.... - Perfeito! maravilhoso... nunca vi um quadro assim! (e nunca tinha visto mesmo...rs)

Depois dessa conclusão, tive que conviver com meus anfitriões por mais três dias, que de acordo com o contrato era o tempo estimado para a finalização da perícia. Quando se deduz que o quadro é falso, a pericia termina nesse momento, já que depois de constatado o fato, nada acontecerá para que essa conclusão técnica seja revertida, mas naquela hora e naquele lugar, eu não iria deixar isso evidente de modo algum.

Embarquei de volta ao Brasil, temendo ser abordado pela polícia todos os minutos, mas tranqüilo de ter colhido provas suficientes para a minha definição.

Meu contratante, ao contrário do que se possa imaginar, ficou feliz, não por gastar os U$ 40.000,00 mais meus custos e honorários, mas por deixar de perder os oito milhões que custariam caso tivesse adquirido a falsificação.

Pois é, o Goya de Cuba, finalmente virou Goia!

 

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